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Ciganos: Ciganos: Parque Nómada de Coimbra ajuda a vencer ''desconfianças ancestrais''
Publicado em 25-06-2007
Tema: Notícias
A construção do Parque Nómada de Coimbra, em 2004, abriu novas oportunidades à integração da comunidade cigana da cidade, que tem ainda pela frente um longo caminho para vencer “desconfianças ancestrais”.

As cerca de 100 famílias ciganas que assentaram arraiais em Coimbra estão em diferentes pontos do concelho, sobretudo nos bairros camarários do Ingote e da Rosa, onde 12 por cento da população pertence à etnia minoritária.

Durante décadas, os ciganos do clã Monteiro habitaram um conjunto de barracas degradadas junto à Estação Velha, no início da estrada que segue para a Figueira da Foz.

A Câmara Municipal de Coimbra decidiu “acabar com aquela vergonha”, recorda o vereador da Habitação, Jorge Gouveia Monteiro.

Num primeiro momento, o Parque Nómada, montado nos campos do Bolão, próximo daquele antigo acampamento, serviu para realojar os membros do clã Monteiro, num total de 37 pessoas.

Aos poucos, segundo Gouveia Monteiro, a autarquia veio a encarar aquele equipamento “mais como um centro de estágio habitacional”, por onde passam as famílias ciganas, em geral, antes de serem instaladas noutras casas da cidade.

“As famílias estão sob observação e acompanhamento técnico intensivos”, afirma, explicando que o complexo do Bolão inclui 11 casas pré-fabricadas e um centro de apoio social, em madeira, onde trabalham uma animadora cultural, uma professora e um psicólogo da Associação Fernão Mendes Pinto.

Gouveia Monteiro salienta que “as mulheres foram um aliado precioso” na transferência dos Monteiro para o Parque Nómada, ao assumirem o “desejo de autonomia das famílias”, que viviam antes juntas, sem privacidade, sob tutela do patriarca.

A conservação da casa, a participação nas tarefas rotativas do parque e a assiduidade das crianças vinculadas à escolaridade obrigatória são algumas das exigências que pesam na posterior transferência de cada família para outras habitações na cidade.

“Quatro famílias, com um melhor desempenho, já saíram do Parque Nómada nestes três anos. Para já, é um êxito habitacional. Este projecto produz resultados ‘à la longue’, pois estamos a trabalhar com desconfianças ancestrais”, refere o vereador da Habitação, ao realçar que a aposta abrange a educação escolar, a formação profissional e o emprego.

Joaquim Cardoso Barbosa, 53 anos, que vende roupas nas feiras, de Norte a Sul do país, é presidente da Associação Cigana de Coimbra (ACC).

Quem entra na sede, no bairro do Ingote, tem logo à esquerda uma enorme foto de Joaquim Monteiro (“Tarzan”, como é conhecido em toda a cidade), com longos bigodes e o inconfundível chapéu de abas largas.

Joaquim Cardoso faz a visita guiada à ACC. “O cigano nunca gostou de ter patrão, nem de ser mandado”, explica.

No entanto, o vendedor ambulante lamenta estar inscrito no Centro de Emprego de Coimbra há oito anos, procurando trabalho como motorista, sem nunca ter conseguido.

Um jovem da família Monteiro, Joaquim, de 16 anos, frequenta a Escola Silva Gaio. “É muito melhor viver aqui”, no Parque Nómada, do que no acampamento que existiu na Estação Velha, afirma Joaquim, que sonha ser jardineiro.

Décio Cardoso mora há duas semanas no parque do Bolão, com a mulher e dois filhos menores. “Temos uma vida normal e respeitamo-nos uns aos outros”, relata.

Bruno Gonçalves foi fundador da ACC e preside agora à associação Juntos Pela Diversidade, criada em Março, que congrega imigrantes e de diferentes etnias e nacionalidades.

Com a mulher, Marisa Oliveira, tem uma tenda no Bota-Abaixo, na Baixa de Coimbra, onde comercializa roupas.

“A relação dos ciganos com o povo de Coimbra é relativamente boa. As pessoas compram coisas baratas e voltam sempre”, declara.

Bruno Gonçalves queixa-se de um alegado “complot de algumas lojas comerciais da Baixa” para que os ciganos abandonem o local: “fazem cada vez mais força para sairmos daqui”.


Marisa Oliveira assume que a mulher cigana tem beneficiado nos últimos anos de “uma mudança muito grande” de mentalidade das comunidades nómadas.

“No passado, a mulher ficava mais em casa, a cuidar do marido” e dos afazeres domésticos. Actualmente, “já estuda, não tem que vestir saias compridas e pode sair à rua sozinha”.



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